quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

Por onde ides, caros confrades?

Não tenho explicação para o facto dos co-autores deste blogue "Shame On You You Sheep Shagger You" e "Mega" terem desaparecido da galeria de colaboradores, na lateral, à direita. Seria motivante o regresso de Patch-Echo, bem como a estreia (!?) de Aragón... Ó da casa!?

terça-feira, Abril 04, 2006

Por trás de um Arbusto

«Na verdade, nunca mais se falou de como se afundou o navio que legitimou a tomada de Cuba aos espanhóis, nem da entrada dos EUA na II Grande Guerra, então justificada pela inesperada (?!) invasão do espaço aéreo norte-americano, tomado por um enorme enxame de kamikazes que, depois de atravessar, incógnito (?!), meio mundo, fez Pearl Harbor em fanicos. Além disso, havia que fazer-se algo bem mediático, para não restarem dúvidas à desfavorável opinião pública americana. A técnica, semi-pírrica, é já antiga. E os americanos continuam a tomar-lhe o gosto como se pela primeira vez, em todas as primeiras vezes, porque a memória é, tarde ou cedo, apagada ou, ao jeito orwelliano, reescrita. Desde há milhares de anos de estratégia militar que certas unidades são sacrificadas em função de finalidades outras. Não convém, no entanto, que elas saibam que vão ser sacrificadas...»

Escrevia mais ou menos isto numa caixa de comentário do blogue A Sombra. Mas, mais importante, há algo que queria partilhar convosco. Com tempo, dêem uma olhada:

sábado, Abril 01, 2006

Tamiflu: a galinha dos ovos de ouro de Rumsfeld

Circula pelas caixas de correio electónico uma mensagem deveras intrigante que coloca num triângulo não amoroso mas bastante rentável o Tamiflu, Donald Rumsfeld (Secretário de Estado da Defesa norte-americano) e a conspiração sob a alimentação do medo pelo desconhecido, no caso, por uma estranha doença ou vírus. Segundo reza o dito mail, a informação foi extraída do editorial da revista DSalud, uma das mais conceituadas revistas mundiais na área da saúde. Ali se comunica que o vírus da gripe das aves foi descoberto há nove anos no Vietname; que, desde então, morreram apenas 100 pessoas em todo o mundo, e que foram os americanos quem propagandeou a eficácia do Tamiflu (antiviral humano) como preventivo – fármaco de cujos cientistas independentes dizem apenas aliviar alguns sintomas da gripe comum, sendo a sua eficácia questionada por grande parte da comunidade científica. Segundo o texto, «perante um suposto vírus mutante como o H5N1, o Tamiflu apenas aliviará alguns sintomas», sendo que, «até ao momento, a gripe das aves afecta apenas as aves». Surpreendentemente, a bomba: Quem comercializa o Tamiflu? Os laboratórios Roche. A quem comprou a Roche, em 1996, a patente do Tamiflu? À Gilead. O presidente da Gilead e accionista maioritário: Donald Rumsfeld. Sabendo-se que o principal ingrediente do Tamiflu é o anis estrelado, aprofunda-se um pouco a investigação e descobre-se que a empresa detentora de 90% da produção da árvore donde o anis resulta é a Roche. Ora, as vendas do Tamiflu passaram de 254 milhões de dólares, em 2004, para mais de mil milhões em 2005. Quantos mais milhões poderá a Roche ganhar nos próximos meses se continuar o contrabando institucionalizado do medo?
Resumindo, os amigos de Bush decidem que o Tamiflu é a solução para uma pandemia que ainda não ocorreu e que causou 100 mortos em nove anos - criam um fármaco que não cura sequer a gripe comum, e um vírus que não afecta o ser humano em condições normais. Rumsfeld vende a patente do Tamiflu à Roche, esta paga-lhe uma verdadeira fortuna, adquire 90% da produção do anis estrelado, e os governos de todo o mundo, terrivelmente ameaçados pela pandemia, compram à Roche quantidades industriais do produto. Somos peões nas mãos destes animais.

sábado, Março 25, 2006

Diário de... Notícias?!

Será possível que um terço da primeira página de ontem (dia 24) do DN tenha sido dedicada ao regresso dos Gato Fedorento? E ao centro? Com uma foto gigantesca? Mas aquela malta nunca ouviu falar da tábua de valores do Harris?, de critérios de noticiabilidade? Será que Portugal parou ontem? Nada de relevante terá acontecido no dia 23?

sábado, Março 18, 2006

sexta-feira, Março 17, 2006

Por Deus, uma Bíblia para o xuxa!

Começo curto e grosso, até porque a ideia já me atemoriza há semanas. O epíteto tem um nome: "o novo xuxa é desprovido de valores". E passo a explicar porque o vício, intelectualmente mortal, é garantia eleitoral e merece por isso longos minutos de preocupação. Faça-se história antes de tudo o resto. Há dez anos, o PS de Guterres era diferente. Tinha consigo a Igreja e a ala mais ao centro do PS, estigmatizava a herança revolucionária com a necessidade de uma verdadeira política reformista de centro-esquerda. A receita era simples: valores sociais, crescimento q.b., liberalismo moderado. Teve consigo, pelo menos nos primeiros tempos, os sindicatos, afastou-se da esquerda intelectualmente militante que neste país teimava (e ainda teima) em fazer dos "temas franja” mainstream político essencial. Eleitoralmente, os esforços de Guterres foram meritórios. Fez evoluir o partido do sectarismo revolucionário para novos moldes "catch-all", piscou o olho à direita e ao centro, tornou menores os temas fracturantes da esquerda perdida no surrealismo político. Mas perdeu. E dez anos volvidos, as razões das duas maiorias parciais são evidentes. O "centrão" e o PS não estavam suficientemente maduros para uma viagem ideológica com rumo e destino certos. E Guterres perdeu, antes de Sócrates vencer. Os anos que se seguiram ao pântano foram vitais. O país convenceu-se que não era liberal o suficiente para sofrer os efeitos da competitividade sem uma rede de segurança. O ideário social-democrata era menos social e mais democrata e o povo, sincero e verdadeiro, não estava pronto para perder direitos. Durão foi-se embora, Santana não resistiu e Sócrates venceu.
Hoje, o PS é um partido moderno, sem classes económicas nem franjas políticas, um verdadeiro “catch-all” camaleónico de pilares flexíveis, com um código de valores montado à escala do líder. Em resumo, um vazio. O xuxa moderno? Um vazio. Recorro ao exagero para tornar mais evidente o pecado. Os retalhos são muitos: igualdade social, liberalismo q.b, segurança social bastante, igualdade de género, incongruências sexuais, ect, etc, etc, vazio, vazio, vazio. Tudo cabe num capacho onde o estado é laico e a religião só serve para satisfazer os grupos conexos. Com pompa, o novo xuxa defende o direito à igualdade mas olha com desdém contido para as minorias étnicas. Sistema redistributivo? Só recebe quem trabalhou! Ambiente? É bom, mas chega o verde dos jardins urbanos. Direitos homossexuais? Sim, desde que o futuro não sejam os gays-proveta. Um vazio. Incapaz de assumir os extremos, o xuxa refugia-se no centrão fácil e espera pacientemente. Aguarda por um líder fotogénico, um Sócrates de pulso forte e vértebras flexíveis. Conseguiu o que quis, o PS rejubila e o PSD, naturalmente, não tem opções. A vaga integradora varre tudo, até os esboços valorativos. As fragilidades são evidentes, mas ficam para outros posts, outras estórias.

sábado, Março 04, 2006

Blasfemos de meia tigela...

Escrevia assim, anteontem (2.3.06), um tal de Gabriel Silva, co-autor do blogue Blasfémias, num post que titulou "Sorry? - 2":

«Freitas do Amaral, Ministro dos Negócios Estrangeiros, na Assembleia da República:

'(...) Mas é que para mim não era. Não era o essencial. O essencial estava muito para além e muito mais fundo do que o problema da violência. Que era apenas uma reacção....condenável, mas compreensível, face às ofensas, enormes, que tinham sido feitas a toda a comunidade islâmica pelos cartoons, do tal jornal de extrema-direita dinamarquesa (...)'

Tenho para mim como totalmente incompreensível que um Ministro de um Governo fale e assuma posições em nome pessoal. Que neste caso consiga separar o «problema» e a «violência». Que entenda que a violência era «apenas» (repare-se bem: «apenas»), uma «reacção». Então, que tal «violência» seja «compreensível» ultrapassa tudo o que se possa imaginar! Isto não é um ministro, é uma caricatura!»

Não resisti comentar, e, para que se não perca a discussão levada por diante na caixa de comentário do Blasfémias, publico hoje no Crónica o desenrolar textual dos acontecimentos, até porque o escriba blasfemo respondeu utilizando texto constante neste mesmo blogue, quando me referia à polémica dos cartoons, como se assim me apanhasse em contrapé ou contradição. Ora aí vai o meu primeiro comentário:

Ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor. Além de que este pequeníssimo fragmento de imagem é enganador e parece ter sido escolhido bem ao jeito manipulatório de quem só ouve o que quer ouvir e assim descontextualiza uma frase, uma ideia, em prol de um qualquer interesse, cegueira ou paixão (continuo a pasmar quando encontro ou me deparo com gente que se julga e apresenta inteligente, com opinião a botar, especialmente em matéria política, mas com veia apaixonada de hooligan bem comportado, que apenas vê a cor do partido, numa patética manifestação de clubite patológica, partidarite aguda), não é aceitável sim a postura infantil dos deputados do CDS/PP (com Paulo Portas, o Judas de Freitas, à cabeça), desrespeitosa ante a seriedade das obrigações e deveres políticos de uma bancada parlamentar. Na verdade, o Gabriel (que não faço a mínima ideia de quem seja), devia ter vergonha ao apresentar um post tão simplista e tendencioso. Diria mesmo mais: caricatural! Mas eu far-lhe-ei o favor de explicar porque o digo. Em última análise, Freitas do Amaral pretende estar na linha da frente não de uma operação militar, mas da criação de uma plataforma de paz e entendimento que estanque, na medida do possível, a cavalgada apocalíptica da qual o Gabriel parece ser adepto fervoroso, eventualmente sem o saber. Sim, chamei-lhe apocalíptico inconsciente. Freitas estará ainda a procurar proteger o País fazendo diplomacia atenuante, até porque caricatural seria considerar desprovidos de ofensa ou segunda intenção os cartoons desenxabidos e sem graça publicados por aquele manhoso jornal dinamarquês, e muito menos apoiá-los, catalizando o choque de civilizações, culturas, religiões, o que lhe queiram chamar vocês, os inteligentes da opinião irreversível na hora, irreflexiva. Ridículo é fazer da bosta daqueles cartoons um cavalo de batalha. A Europa já deveria ter aprendido com a experiência da guerra, que deveria ser para não repetir. Freitas não foi ao beija-mão. Mais do que isso, revelou um enorme sentido de Estado e demonstrou estar à altura da responsabilidade que lhe foi imputada. Freitas separa, segundo diz Gabriel, «o problema e a violência». Pois deve separar mesmo. A complexidade da questão, já de si tão volátil e transitória, exige cuidados e diplomacia que, atentando a um princípio filosófico basilar, não justifique a reacção de um mal por outro mal, já para não recordar as palavras da Bíblia, nas quais se professa a entrega da outra face, compreendendo eu que, dada a gravidade da situação, tal opção não seja viável, estando em risco incontáveis vidas civis. Quanto a Telmo Correia, Freitas, já que lhe respondeu, não merecendo o primeiro mais do que indiferença, deveria ter ripostado mais ferozmente, mas mesmo assim manteve a calma. Talvez lhe pudesse ter dito: «Está visto que o senhor é capaz de dizer qualquer coisa sobre qualquer um dos presentes, desde que isso lhe dê visibilidade ou sirva os seus dúbios interesses pessoais. O senhor está apresentado.» Este político de meia tigela, um yuppie de redoma desencontrado do mundo real, foi capaz de dizer a Freitas que este tinha vergonha de ser ocidental… E o Gabriel vai nesta conversa de chacha?! Que raio interessa ao País a raivazinha absurda do Telmo Correia?, um ataque pessoal ao fundador do seu próprio partido, desprovido de carácter urgente? A liberdade de expressão deverá estar sempre aliada à liberdade religiosa e ao respeito entre religiões e culturas. É isso que Freitas tem em mente, algo que ultrapassa por completo a mesquinhez medíocre das acusações de que é alvo. Trata-se de colocar um travão na grupal alucinação apocalíptica. Da mesma forma que os radicais islâmicos fizeram de cartoons inofensivos sem carga noticiosa, força de notíca, referência jornalística ou importância, algo de publicação obrigatória, querem alguns, porventura com gosto por telenovelas ou histórias de cordel, sentir a vertigem da montanha russa de um confronto global imprevisível, algo que não é próprio de uma sociedade dita evoluída, democrática e multicultural. A escalada é real e tangível. Na Europa, os atentados bateram-nos à porta, em Madrid, não em Copenhaga! O que você aqui escreveu, Gabriel, foi uma burrice de todo o tamanho, mas como você há muitos, infelizmente. Além do mais, não sou certamente eu que lhe direi ou convencerei a esquecer tudo o que pensa, tudo o que pensa que sabe, e tudo aquilo que se recusa pensar, abrindo assim o espírito e a mente, compreendendo que a Europa precisa de tudo menos de dar consistência à coisificação da Guerra de Civilizações, para muitos, apocalípticos, o fim do mundo, o dia do juízo final, a derradeira batalha entre o Bem e o Mal. Deveríamos estar num patamar civilizacional bastante mais evoluído. E Freitas merecia melhores críticos... sem dúvida, melhores deputados. Se estiver à altura de responder pela sua própria cabeça sem fazer copys e pastes, ou adaptações tímidas de algo que alguém da sua escola escreveu, faça o favor, mas duvido, sinceramente, que esteja disposto a mudar de ideias. Quem pensa que pensa assim está parado no tempo e no espaço.



Depois de uma avalanche moderada de comentários de um ou outro lado da barricada, a resposta do tal Gabriel:

«Ao senhor Davi Reis:

Deixo ao seu cuidado as «burrices» e demais insultos pois que demonstrou estar muito à vontade com tais realidades, certamente fruto de experiência pessoal.

Reconheço também que não estou à altura de «responder pela minha própria cabeça» (ocupada que está em funções mais nobres), «sem fazer copys e pastes, ou adaptações tímidas de algo que alguém (...) escreveu»:

'... hoje, num acto de coragem assumida, publico os cartoons da discórdia, que alguns já dizem estar na origem da Terceira Guerra Mundial; outros, que são substância de consistência à coisificação da Guerra de Civilizações, para muitos, apocalípticos, o fim do mundo, o dia do juízo final, a derradeira batalha entre o Bem e o Mal - apesar de, do meu ponto de vista, ver dois males em rota de colisão, ambos sob o pretexto - esse sim, sacrílego - do Bem... O despoletado pelos desenhos, que muitos ainda não tiveram oportunidade de ver (os cartoons foram literalmente censurados nos Estados Unidos da América), colocou em xeque, por um lado, a herança das maiores conquistas civilizacionais do Ocidente, a em tempos utópica liberdade de expressão, e por outro, um profundo dogma espiralado concentricamente, tão hipnótico e manipulador quanto a debulhadora americana. A liberdade de expressão e a liberdade da imprensa são as traves mestras de qualquer sociedade democrática. É precisamente o direito de questionar o status quo que permite a uma sociedade desenvolver-se e prosperar. Mas a liberdade de expressão deverá estar sempre aliada à liberdade religiosa e ao respeito entre religiões e culturas.
Publico hoje os cartoons precisamente por e para aqueles que ainda os não viram. Para que saibam exactamente o que levou milhares de pessoas a odiar uma nação, confundida ignorantemente com um mero órgão de comunicação, suas editorias, seus criativos, seus cartoonistas (cartunistas, eu sei); para que possam, depois da reacção gerada, avaliar com conhecimento de causa, pensamento livre, o sucedido. Eu próprio, jornalista, produzo conteúdos. Sou o primeiro a editar-me, o censor-mor do reino do meu corpo, raiano do que em essência sou, e das palavras que a minha mão escreve. Eu não faria aqueles desenhos, mas aceito-os, como aceito a música do Nel Monteiro, igualmente blasfema para a Grande Música. Não os publicaria acaso fosse o editor do jornal Jyllands-Posten. Desconheço o que que se passou, naquele dia, naquela redacção, para que os cartoons se produzissem. Desconheço se influências exteriores houve para que se beliscasse uma zona tão sensível do mundo islâmico. Mas não posso aceitar que, em resultado dos desenhos, se peça a cabeça dos autores. Muito pior, menos posso aceitar que, depois de ver as suas embaixadas destruídas em actos de radicalismo grosseiro, fanatismo tresloucado, o povo ou o governo da Dinamarca deva um pedido de desculpas ao Islão (?!). Um assalto cobarde a uma embaixada é seguramente pior do que uma declaração de guerra. Não gostaria de ser dinamarquês num momento de tensão como este. Tal como os Taliban não têm domínio sobre os cartoonistas dinamarqueses, também o governo dinamarquês o não tem. É precisamente essa a beleza da coisa! Num rodapé noticioso li: «Taliban dão 100 quilos de ouro a quem matar autores dos cartoons.» O primeiro ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussens, disse, no dia 3 de Fevereiro, a uma assembleia de diplomatas: «Deparamo-nos com um problema, que pode crescer a ponto de se tornar num problema global. Os cartoons foram agora republicados numa quantidade de jornais em toda a Europa e se os protestos nas ruas escalarem mais ainda, poderemos enfrentar repercussões imprevisíveis em todos os países afectados.» Na verdade, os radicais islâmicos fizeram de cartoons inofensivos sem carga noticiosa, sem força de notíca, referência jornalística ou importância, algo de publicação obrigatória. A Europa e o povo europeu não pode ser posto em xeque, sob ameaça de guerra ou sabe-se lá o quê, sem conhecer o motivo. E a Dinamarca não pode pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu. Citando o manifesto Como Uma Liberdade, que circula na Internet, «tal será como pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo.

Davi Reis, in
http://cadernodecorda.blogspot.c...a-no- viram.html

Ripostei novamente da seguinte forma:

Gabriel, deu um tiro no pé com a sua resposta. Lá está, não me surpreendeu. Fez um copy e um paste, não de um autor da sua escola, mas de mim próprio, e, felizmente, embora não tenha copiado o texto na íntegra, não alterou nada, como fez precipitadamente sobre as declarações do ministro, num post anterior. Peço-lhe fraternamente desculpa se acaso o insultei, «mas olhe que não...» Não era essa, sinceramente e sem ponta de hipocrisia, a minha intenção. Adiante, confesso não compreender neste particular a sua intenção ao, no estilo marcial asiático, fazer uso da força do adversário em seu benefício. Acabou por aplicar um segundo golpe em si mesmo e a qualquer réstia argumentativa de que pudesse dispor. Ao contrário de si, penso livremente e, se ler com atenção o que foi escrito, reparará que não me contradigo. Na minha idealização utópica está, muito simplesmente, a harmonia entre os povos. E reafirmo o termo burrice se aplicado a todos aqueles que fazem política nos dias de hoje sob a premissa «se não estão connosco, estão contra nós», num estilo totalitarista que define, por incrível que pareça (não lhe parece?), a administração Bush. Não é digna a opinião de vistas curtas que se cinja à dicotomia hipotética de análise, a um binómio de carne ou peixe na ementa. O Gabriel deve estar bastante baralhado para confundir como confunde todas estas questões. Imagino que tenha mais o que fazer e, acredite, isso nota-se. Por isso, aconselho-o a publicar no Blasfémias, um blogue que creio ser bastante lido, apenas quando tiver algo de útil, estruturado e verdadeiro para dizer. Custa-me que se crie tanta distorção entrópica pseudo-avalizada na blogosfera. Olhe que é preciso topete...

Despeço-me cordialmente Gabriel.



E para rematar:

Ah!, e já agora, uma vez que, por algum estranho motivo, o Gabriel não quis incluir a primeira frase do meu post que aqui transcreve (logo a primeira!, imagine-se), eu faço-lhe esse favor, para que não lhe falte nada: «Partindo do sensato pressuposto de que nem as acções e intenções da América (ou dos americanos) podem ser deturpadamente confundidas com aquelas da administração Bush; nem as do Islão com as dos chamados radicais árabes (...)» E termino, já agora, com algo que John Locke escreveu, em 1689, na sua Carta sobre a Tolerância: «A tolerância […] aplica-se ao exercício da liberdade, que não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza».


terça-feira, Fevereiro 14, 2006

Os cartoons dos cartoons...

Uma segunda vaga de cartoons, desta feita alusivos à reacção àqueles publicados no jornal dinamarquês Jyllands-Posten, já entrou em marcha, sendo certo que órgãos de informação (?!) islâmicos iniciaram também uma verdadeira campanha de injúria utilizando o mesmo "armamento", cujas munições contêm tinta, muita tinta (antes assim)... Descobri aqui coligidos uma série de cartoons (estes, com piada) dos melhores cartoonistas de todo o mundo (onde só falta mesmo o Ricardo Galvão), intitulada Those Muhammad Cartoons... De lá escolhi uns quantos, que hoje publico.
Não a despropósito, ainda há pouco mais de duas semanas o grande caricaturista português Ricardo Galvão me desenhou caricaturalmente, obra que, por acaso, emoldurei anteontem. Não me fez mais bonito... Talvez lhe faça uma espera à saída do jornal A BOLA, com um bando de capangas... Não perde pela demora...

Bob Englehart

Stephane Peray

Matt Davies

John Deering

Jeff Stahler

Dario Castillejos

Ingrid Rice

Christo Komarnitski

Signe Wilkinson

Alen Lauzan Falcon

Chip Bok

Cameron Cardow

Signe Wilkinson

Bill Day

*

Divirtam-se!

domingo, Fevereiro 12, 2006

Os cartoons que muitos ainda não viram

Partindo do sensato pressuposto de que nem as acções e intenções da América (ou dos americanos) podem ser deturpadamente confundidas com aquelas da administração Bush; nem as do Islão com as dos chamados radicais árabes, hoje, num acto de coragem assumida, publico os cartoons da discórdia, que alguns já dizem estar na origem da Terceira Guerra Mundial; outros, que são substância de consistência à coisificação da Guerra de Civilizações, para muitos, apocalípticos, o fim do mundo, o dia do juízo final, a derradeira batalha entre o Bem e o Mal - apesar de, do meu ponto de vista, ver dois males em rota de colisão, ambos sob o pretexto - esse sim, sacrílego - do Bem... O despoletado pelos desenhos, que muitos ainda não tiveram oportunidade de ver (os cartoons foram literalmente censurados nos Estados Unidos da América), colocou em xeque, por um lado, a herança das maiores conquistas civilizacionais do Ocidente, a em tempos utópica liberdade de expressão, e por outro, um profundo dogma espiralado concentricamente, tão hipnótico e manipulador quanto a debulhadora americana. A liberdade de expressão e a liberdade da imprensa são as traves mestras de qualquer sociedade democrática. É precisamente o direito de questionar o status quo que permite a uma sociedade desenvolver-se e prosperar. Mas a liberdade de expressão deverá estar sempre aliada à liberdade religiosa e ao respeito entre religiões e culturas.
Publico hoje os cartoons precisamente por e para aqueles que ainda os não viram. Para que saibam exactamente o que levou milhares de pessoas a odiar uma nação, confundida ignorantemente com um mero órgão de comunicação, suas editorias, seus criativos, seus cartoonistas (cartunistas, eu sei); para que possam, depois da reacção gerada, avaliar com conhecimento de causa, pensamento livre, o sucedido. Eu próprio, jornalista, produzo conteúdos. Sou o primeiro a editar-me, o censor-mor do reino do meu corpo, raiano do que em essência sou, e das palavras que a minha mão escreve. Eu não faria aqueles desenhos, mas aceito-os, como aceito a música do Nel Monteiro, igualmente blasfema para a Grande Música. Não os publicaria acaso fosse o editor do jornal Jyllands-Posten. Desconheço o que que se passou, naquele dia, naquela redacção, para que os cartoons se produzissem. Desconheço se influências exteriores houve para que se beliscasse uma zona tão sensível do mundo islâmico. Mas não posso aceitar que, em resultado dos desenhos, se peça a cabeça dos autores. Muito pior, menos posso aceitar que, depois de ver as suas embaixadas destruídas em actos de radicalismo grosseiro, fanatismo tresloucado, o povo ou o governo da Dinamarca deva um pedido de desculpas ao Islão (?!). Um assalto cobarde a uma embaixada é seguramente pior do que uma declaração de guerra. Não gostaria de ser dinamarquês num momento de tensão como este. Tal como os Taliban não têm domínio sobre os cartoonistas dinamarqueses, também o governo dinamarquês o não tem. É precisamente essa a beleza da coisa! Num rodapé noticioso li: «Taliban dão 100 quilos de ouro a quem matar autores dos cartoons.» O primeiro ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussens, disse, no dia 3 de Fevereiro, a uma assembleia de diplomatas: «Deparamo-nos com um problema, que pode crescer a ponto de se tornar num problema global. Os cartoons foram agora republicados numa quantidade de jornais em toda a Europa e se os protestos nas ruas escalarem mais ainda, poderemos enfrentar repercussões imprevisíveis em todos os países afectados.» Na verdade, os radicais islâmicos fizeram de cartoons inofensivos sem carga noticiosa, sem força de notíca, referência jornalística ou importância, algo de publicação obrigatória. A Europa e o povo europeu não pode ser posto em xeque, sob ameaça de guerra ou sabe-se lá o quê, sem conhecer o motivo. E a Dinamarca não pode pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu. Citando o manifesto Como Uma Liberdade, que circula na Internet, «tal será como pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo».

Em 1689, John Locke escrevia, na sua Carta sobre a Tolerância, que «a tolerância […] aplica-se ao exercício da liberdade, que não é licença para fazer tudo o que se deseja, mas o direito de obedecer à obrigação, essencial a cada homem, de realizar a sua natureza».
Deixo-vos os cartoons, divulgados aqui.

terça-feira, Janeiro 10, 2006

Outdoor com Cavaco só mesmo assim... (cortesia d' O Acidental)

sexta-feira, Janeiro 06, 2006

Por Deus, um profiláctico para o Messias!!!

O actual estado de crise da campanha exige um profiláctico para evitar males maiores. Para proteger, não para curar. Para que não alastre, deixo o meu contributo singelo.

Ponto 1. Não posso deixar de concordar com os reparos sionistas à proclamação antecipada do menino-Deus. Cavaco tem mais tempo, mais atenção, mais air time, mais paper time. Tem tudo a mais mesmo que isso lhe valha de pouco. Para anti-gaúdio da imprensa de referência, só as televisões contam no país dos desinteressados. Tudo o resto, infelizmente, é caravana que passa.
A segmentação das classes A e B separa-as das demais, distancia-as do centrão influenciável, o B-, C+ e C de contornos indefinidos e mais instáveis na hora de decidir o seu voto.

Ponto 2. Nem nas sagradas escrituras estava escrita, de uma forma tão explícita, a ascensão do menino-profeta. Entendem-se as razões que estão na base dos elogios a Cavaco. Cavaco é o favorito, Cavaco já foi primeiro-ministro, Cavaco alimenta o sebastianismo que os jornais implicitamente elegem como elemento máximo da alma nacional. Porque Cavaco sabe de economia e porque Cavaco liderou país nos seus períodos mais luzidios. Dou-lhes razão. Cavaco é o mais provável vencedor à primeira volta, o líder por larga margem nas sondagens. Mas a diferença de tratamento é injustificável. Porquê? Simplesmente porque não deve existir, muito menos ser sentida, lida, vertida em textos de vitórias futuras. Percebe-se no tom da prosa, nas perguntas feitas, nas referências aos outros candidatos, na falta de títulos que maculem a sagrada inocência do Messias. Normal? Não é, não devia ser. Mas em Portugal e no reino o dever-ser, a deontologia perde-se nos seus meandros. Deixa para depois o que devia analisar hoje. Mas em Janeiro jogam-se os interesses institucionais. Antes, é preciso acautelar dez anos de convivência com Belém. Só isso marca pontos no jogo da glória. No futuro isso será importante, é verdade. Só é pena que hoje os portugueses percebam isso.

Ponto 3. Sinceramente, parece-me descabida a paixão da direita pelo profeta social-democrata. Não chego ao extremo de pensar que o proto-Messias não é de direita. Nada disso. Cavaco, como sempre, acautela os interesses do centro-direita da mesma forma que a esquerda faz a apologia do anti-capitalismo cavaquista. Mas o vazio conservador abriu espaço a uma nova vaga de desinteressados. Cavaco é de Boliqueime, economista sim mas não de nobres famílias. Também não revela um amor exacerbado por Portugal, apesar dos desejos - pouco inteligíveis - de um país maior. Não me revejo nestas críticas, mas considero-as sinceras. A divina concepção do Messias também não lhe permite uma paixão desenfreada por uma família que não a sua. Ou por uma religião que não a dele. Cavaco é pelo Estado mas q.b. Doseia-o com pepitas de liberalismo económico, a gosto da nossa classe empresarial. Dito isto, talvez a presença de Paulo não fosse de todo descabida.

Ponto 4 e ponto prévio a tudo o resto. Soares é sem dúvida a patologia menor no meio de tudo isto, mesmo que continue a ser um mal maior. A idade já pesa e os rasgos de rabugice política também. Sem ideias novas que lhe valham, perde-se num ataque desenfreado ao messias-profeta sem perceber que nem o Estado laico-socialista está com ele. Os novos xuxas pós-modernos revêem-se pouco no currículo histórico do mais decano dos socialistas. Mas sem saberem em quem votam, habilitam-se a dez anos de solidão.

quarta-feira, Novembro 09, 2005

segunda-feira, Novembro 07, 2005

Morte aos chibos

Só um àparte: se eu fosse patrão e me viessem fazer queixinhas ou denegrir a imagem de um colega, era o bufo, o delator, o chibo traidor, esse Judas desleal qual Janus, que eu exemplarmente puniria. E tanto pior o castigo, quanto a injustiça da acusação.
Aragón? Entonces?

terça-feira, Outubro 25, 2005

Só o silêncio de Aragón não nos compensa agora... Anda daí, companheiro!, e completa o círculo de três vértices para que eu volte a publicar!

O silêncio compensa

A confirmação do Messias em formato tv-rádio-revista provou nos últimos dias que o sebastianismo, para gáudio dos lugares comuns, é memória e palavra viva. De desaparecido em combate ao regresso do semideus, dez anos passaram sem que a fúria do herói enchesse páginas com substância. Preenche-as agora o D. Sebastião, salvador encarnado em poses mais velhas – mas não idosas - e sem o ónus de um autoritarismo salazarista. Cavaco não é Salazar. Os portugueses não lhe temem o despotismo desmedido. Dele também não esperam valores pessoais dignos de discussão pública, nem a memória efervescente de um Portugal orgulhosamente só. Cavaco é apenas e só Cavaco. Não desperta paixões populares, campanhas de sublevação popular em prol do futuro. Não se lhe reconhecem poderes sobre-humanos nesse domínio. Dele e de outros aprendemos - infelizmente - a elogiar a poupança eleitoral, o calculismo político que nos alimente o desinteresse colectivo. Continuamos orgulhosamente sós. Move-nos a falta de participação cívico-associativa, o desinteresse por tudo o que transcenda o núcleo próximo das nossas relações políticas. Opinamos em excesso, votamos por defeito, participamos ainda menos. Movem-nos as causas, explicam alguns, do pós-materialismo valorativo. Só há lugar no planeta para os grandes desígnios ‘intelectualistas’ deste mundo: mais ambiente, mais direitos para os homossexuais, mais aborto. Mas nem disso Cavaco falará decerto, ele a quem os ‘voluntários’ seguem em massa. Não cabe ao candidato pronunciar-se do que ao presidente compete. Falará pouco, mas bem, do que sabe melhor em debates a dois. A sorte é que até num mundo pós-materialista contam os valores da poupança familiar e do futuro económico da nação. Por isso impõe-se rigor e seriedade: impõe-se estabilidade e não rasgos de criatividade. Para Cavaco só o futuro interessa, mesmo que não haja memória do seu passado recente. Mas foi pela estabilidade que rompeu o silêncio. É pelo futuro da nação que agora sai da apatia cívica para ganhar votos. Dez anos depois, o silêncio compensa no país dos indiferentes.

segunda-feira, Outubro 24, 2005

sábado, Outubro 22, 2005

Cavaco cabron

Mi amigos, eis que hoy me gusta de hablar de Cavaco cabron, num bales un toston.

Fascinam-me os teóricos do sistema presidencial sem teoria que lhes valha. Trinta anos passaram desde a Constituinte, tempo suficiente para que os profetas da reforma abram mão do equilíbrio sistémico que tem pautado as relações entre Belém e S.Bento. Profetizam revoluções constitucionais com a mesma facilidade de quem abre mão dos direitos adquiridos. Lêem nas estrelas um país liderado por um presidente executivo mas prisioneiro de uma arbitrariedade maior consagrada num programa de linhas baças. Basta-lhes o compromisso, eleitoralmente legitimado. Basta-lhes para justificarem o resto: o fim do equilíbrio estável que tem - com picos e depressões é certo -, regido o nosso sistema institucional. “Belém deve ser o galo maior num poleiro mais alto”, vociferam.”Pactos de regime não chegam”, acrescentam. “Ao Presidente exige-se mais” Deve ser ele o garante do que o sistema não tem: bom senso. Mas confundem isenção com arbitrariedade e personalismo. Vêem no chefe de Estado o que não ele tem capacidade para ser: um actor imparcial. Esperam que o Messias lhes mostre o que o próprio tenta, mas não consegue negar: para o filho de Deus, o amor presidencial não tem partido assumido, mas o coração tem sempre uma cor. Acrescente-se que nenhum candidato dirá ‘não’ ao poder de dissolução em tempo de guerra-fria. Seria claudicar da arma maior quando os efeitos da primeira bomba ainda se fazem sentir. Hoje, não cabe ao Presidente renunciar aos poderes que são seus, esvaziar aquilo que deve ser o mandato presidencial. Felizmente que os actuais candidatos renunciam a esse erro. Não há semi-presidencialismo sem um controlo eficaz, mesmo que ausente. A história serve de exemplo: o equilíbrio é apanágio dos sistemas democráticos e no caso português, renunciar à dissolução parlamentar só poderia ter como opção um parlamentarismo com poderes reforçados. Jorge Miranda diz hoje no DE que os portugueses partilham ainda muito da memória monárquica, da separação entre Estado e Governo. Concordo e discordo. Partilham, é certo, do saudosismo por uma figura maior, mas evoluíram no contratualismo democrático. Já não entregam o poder, exigem mais a quem elegem. Os actores agora são dois, Governo e Presidente, Adão e Eva. Aos dois cabe perpetuar a linhagem dinástica de um sistema com apenas – e insisto, apenas - trinta anos. Pensar menos da capacidade de cada um deles para nortear as opções do filho pródigo seria pensar menos das opções de cada um de nós.

quinta-feira, Outubro 20, 2005

Segundo passo e meio

E assim piso eu a «terra prometida» agora. Se a sua localização é no México e se a villa se chama «Chuaterca de los Álamos», isso já não sei dizer. O que sei é que se espera a chegada do terceiro cavaleiro na busca do Graal incorpóreo das ideias e das palavras. Aragón, que haces? Te esperamos amigo!
Só avanço quando o círculo se completar. Espera-se o terceiro passo; o terceiro amigo.

Aragón, el gringo de La Chuaterca de los Álamos

Ela tinha as unhas partidas. Na mão, um copo de whisky. A saia destapava-lhe as pernas, os seios transbordavam, redondos, da camisa justa de cetim com motivos florais, e nada se dizia a seu favor naquela casa de reputação. A meretriz dançava ao som da rumba com um salto partido, e a barriga da perna, tensa, fazia-se notar. Ernesto viu nela Cassandra sob o lusco-fusco carmesim e o álcool entorpecente. Parecia-lhe o amor da sua vida, a bela Cassandra que o deixara só, para depois se intoxicar em aspirina, antidepressivos e analgésicos (que Ernesto sempre julgara serem supositórios); beber 75 cl. de whisky; desmanchar, irascível, o vestido de noiva; elogiar Evita Perón e Pinochet na mesma frase, e tudo na mesma noite, na mesma meia-hora. Depois, Ernesto só se recorda de a ver lançar-se da varanda, em voo picado para a glória vertiginosa da morte vomitada de um sétimo andar. Ernesto, o quixotesco caixeiro-viajante uruguaio, levantou-se da cadeira que se ouvia ranger em dias de silêncio solarengo sem música latina, bamboleou-se, ébrio, até junto do balcão do bar em tábuas e pipas, chegou-se ao mexicano mariachi de sombrero e bigode espaventoso e perguntou-lhe quem era aquela mulher. Paquito, o mexicano, que apoiava o queixo nas mãos, e as mãos, uma sobre a outra, na garrafa, parecendo querer selar definitivamente os vapores da mescalina, olhou-o semicerrado de lado como se visse nada senão um vulto.
- Aragón! Tienes que hablar con el gran Aragón, señor de las Chiquititas - disse o mariachi gorducho apoiado na garrafa.
- Pero... quien es Aragón? Donde está el hombre? Las Chiquititas?! Yo solo quiero mi Cassandra...
- Si, cojones! Aragón, el gringo. Y Cassandra? No hay ninguna Cassandra aquí!
Um homem distinto interrompe o diálogo possível entre os dois burgessos. Era Aragón, senhor das terras de La Chuaterca de los Alamos e mestre soez das perversas mulheres do Chiquititas Palace, antro da vergonha local e da luxúria dos forasteiros. O fidalgo desencaminhado lança:
- No hay Cassandra aquí, pero estavas mirando Ruby. Habla con ella ahora y, si quieras, llama-la Cassandra. Le gusta doggy style. Mañana puedes ir sin pagar.
Aragón sempre fora um cavalheiro e amigo de seu amigo. Na penumbra dos quartos do Chiquititas Palace, Ernesto pensou, enquanto a tequilha performava o seu efeito, ter copulado com a saudosa Cassandra e não a rameira Ruby. Aragón sempre o soubera. Do escritório, observara o mais pequeno gesto de Ernesto, que reconhecera de quando ambos haviam lutado juntos pela causa Zapatista. Ernesto não o identificou sem barba, nem com aquele chapéu de cowboy. Aragón procurara redimir-se depois de, 20 anos antes, ter traído Ernesto, que ficara nos Andes pela causa e dera o endereço de Cassandra ao companheiro Aragón que, ferido em combate, regressava à cidade. Aragón entregou mais do que uma carta a Cassandra, onde Ernesto devotava o seu profundo amor.

Primeiro passo

E assim piso a terra prometida. Com os pés no chão e sem pretensões. Escrevo simples, penso simples, escrevo simples. Faço disto mote, mote para o resto...
n.b. - Post original de Patch-Echo... ou será Sheep Shagger?

Passo propedêutico

O título deste blogue poderia ter sido o de uma qualquer novela mexicana. Patch-Echo tinha, no entanto, uma ideia predefinida para a titulação baptismal do blogue dos três amigos: «Porque Não Tem Talo o Nabo». Parecera-me, no mínimo, original, mas demasiadamente humorístico e algo brejeiro. Seria difícil, tendo por cabeça tal título, escrever com seriedade e, pior, ser lido com seriedade, em sendo esse o caso. Chegámos à conclusão que "Crónica dos Maus Malandros" nos dava margem de liberdade e progressão suficiente para nos deslocarmos agilmente entre a novela mexicana e a opinião construtiva. Na verdade, este é já o segundo blogue criado sob tal cabeçalho. Acontece que, da primeira vez, algo correu menos bem com o template - coisas de nerds informáticos e linguagem html - e Patch-Echo eliminou a experiência, mas não sem antes se salvar o conteúdo. Na altura, faltava a adesão de Aragón, o terceiro "de los tres amigos". Por hora deste post serei eu o único "Malandro", mas publicarei de seguida aqueles que já haviam sido escritos e publicados na dita experiência homónima desta, mas falhada. Patch-Echo e Aragón, venham daí! Antes de terminar não posso deixar de, em nome dos Maus Malandros, saudar Mário Zambujal, cuja obra de nome semelhante nos inspirou, em particular ao Patch-Echo, que se deliciou com a leitura de um livro sobre os nossos clones das forças do bem.